quinta-feira, 24 de junho de 2010

Ser fã


Era fim de tarde. Há 45 minutos eu não acreditava que eu estaria ali. Havia centenas de pessoas na fila, e muitas há várias horas. Digo, desde a manhã. Preciso ressaltar que eram dezenove horas.
As chances de eu entrar naquele lugar e conseguir um ponto razoável eram mínimas, e eu ainda não acreditava nelas. Fãs histéricas com faixas na cabeça, calças coloridas, um visual bem moderno e empolgadas escreviam nas paredes a data daquele dia, deixando as marcas de uma noite que seria inesquecível.
A vibe já adiantava a felicidade maior que ainda estava por vir, e no meio de tantas cores, encontrei a esperança: um amigo no começo da fila.
Lá dentro, lotado. A frente do palco era ilusão. Pois lutadora como sou, segurei forte os braços de minha irmã e enfrentei a multidão. Não vou negar, mas quando reclamavam do empurra-empurra, eu era uma das que participava da ação.
Quinze minutos depois, antes mesmo de começar o show de abertura, com os cabelos ensebados, eu me encontrava na segunda fileira. Um calor sufocante.
É claro que com muito esforço e a maior força de vontade que me surpreende eu consegui o lugar tão cobiçado, à frente do palco. A primeira sensação? Vento. A segunda? Eu não acreditava que dali a poucos minutos eu os veria tão de perto, e o melhor, sem ninguém na frente , exceto pelo segurança, um tipo que eu já conhecia, aqueles que paqueram as garotas da frente.
As mãos enrugadas, os cabelos engomados em um coque, a roupa pesando água, o corpo impossível de se movimentar e a coluna doendo da má posição. Mas que importava? Em poucos minutos eles estariam ali. E era só o começo.
Peguei-me distraída, olhando para o lado oposto, e ao voltar a cabeça para o foco, deparei-me com um belo louro, com duas baquetas na mão. Emoção.
Daí para a frente é só alegria. Você conhece a história. O guitarrista preferido bem à sua frente, à um metro de você. Um olhar do vocalista que te segue na mente pelo resto da vida. Realmente, um lugar privilegiado. Sensação de vitória. Compaixão pelos de trás, mas perdoem o comentário; o mundo é dos espertos.
E cada olhar, cada gesto realizado pelos precursores sem nenhuma intenção ganham sentido no olhar daquela plateia. Variadas interpretações acontecem na mente de cada um. E isso torna o momento mais feliz. Aquelas pessoas no palco talvez não entendam, talvez nem mesmo saibam, mas os espectadores julgam as ações de cada um sob o foco daquelas luzes, e criam histórias onde são privilegiadas com um olhar especial, que na verdade era mera admiração sobre a multidão. É mágica a sensação de se receber um destes olhares.
Nas últimas músicas, imagino que aqueles artistas estejam cansados, com fome, felizes pelo final. Enquanto do outro lado, a angústia bate, a saudade já chega. E finalmente, nos últimos momentos, enquanto aqueles meninos devem sentir-se aliviados, com a sensação de dever cumprido, nós suplicamos por mais uns minutos, talvez segundos. A tristeza bate no peito e a vontade é de que aquilo nunca tenha fim.
Talvez ser fã seja uma arte, onde a cena é criada por você, na sua imaginação, no que existe no seu coração quando seu idolatrado está perto. Nas loucuras que você é capaz de cometer, na pessoa que você é capaz de se tornar. Mas poucos compreendem. Mesmo assim, repito, essa sensação única, que pode ser vivenciada em um dia ou até mesmo em cinco minutos, te motiva, te eleva. O prazer é incalculável. No dia seguinte (mês, ano..), a todo instante, cada segundo daquele espetáculo é relembrado, e você sorri. O dia fica mais bonito.

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